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Bia Haddad sonha mudar cenário do tênis feminino no Brasil: “Sinto que é meu papel”

Número 1 do país, jovem paulista luta para diminuir discrepância de gênero nas condições entre homens e mulheres na modalidade e levanta bandeira por torneios no país

Em um esporte individualista como o tênis, é comum que atletas foquem apenas na sua própria carreira. Esse não é o caso de Beatriz Haddad Maia. Em Wimbledon, a tenista brasileira derrubou a ex-número 1 do mundo Garbiñe Muguruza, campeã do torneio em 2017, antes de sentir o nervosismo na segunda fase diante da jovem britânica Harriet Dart (182ª colocada da WTA). Mais do que a vitória pessoal dentro de quadra, há também uma bandeira a ser levada: a do tênis feminino brasileiro.

Não foi fácil para Bia, de 23 anos, entender sua importância. Apenas oito mulheres brasileiras atingiram o top 100 do tênis desde que o ranking foi criado, em 1975. Entre os homens, o número é mais que o triplo: 26. A missão que a principal aposta do tênis nacional toma como sua hoje é mudar esse quadro de discrepância.

— É um sonho que eu tenho. Ajudar o tênis feminino, as crianças, as meninas. Assim como eu comecei, elas começarem e, se têm alguma dúvida, fazer elas acreditarem. Tentar mostrar como acontece aqui, como a gente lida. Tudo isso que a gente tem como fantasma, nós tenistas no Brasil, e às vezes a gente deixa e vai para o caminho universitário, deixa na dúvida, e decide parar de jogar por falta de saber se o caminho é esse. Mostrar que todas as meninas que estão aqui são de carne e osso, que todas treinam, todas fazem a mesma coisa que elas e acreditam. Eu sinto que é o meu papel, sinto que posso ajudar dessa forma. Mostrando até os meus stories, que a gente tem semana que não tem lavanderia e lava roupa no (banheiro do) hotel, leva marmita para o clube. Eu faço isso tudo da mesma forma.

O que as pessoas acham: “Nossa, vida de tenista é maior luxo. Hotel, só lugar bom, torneio te ajudando em tudo”
O que acontece de verdade: número 1 do Brasil, Bia Haddad lavando a roupa na pia para usar amanhã na semifinal do WTA de Bogotá porque não tem outra. pic.twitter.com/3OASdeA60M

— April 13, 2019

Bia amadureceu com as dificuldades que a vida lhe impôs. Há um ano, ela encontrava uma velha conhecida: a mesa de cirurgia. A tenista paulista tem uma história de problemas físicos sucessivos. A mais séria delas foi em 2013, quando tinha apenas 17 anos. O risco era pequeno, mas podia ficar sem andar. Procedimento delicado, de milímetros. Precisava tratar uma hérnia de disco extrusa, uma das manifestações de desgaste mais graves de coluna. Voltou para a mesa de cirurgia para tratar o ombro direito em 2015 e, mais recentemente, para tratar uma nova hérnia na lombar, em maio de 2018.

A canhota brasileira é a atual 121ª e deve voltar ao top 100 com a campanha no Grand Slam britânico, reforçando sua recuperação no circuito feminino. Em 2017, a atual número 1 do país atingiu a 58ª posição no ranking da WTA e era uma das cinco tenistas mais altas no circuito entre as cem mais bem colocadas. Grandeza do potencial equivalente à sua altura: 1,85m.

Bandeira importante da luta de Bia é a campanha #RioOpenPraElas. Hoje, não há torneios do circuito WTA (de maior nível) oficiais femininos no país. Enquanto isso, são realizadas duas competições masculinas, no Rio e em São Paulo de nível ATP. Sem investimento, sem resultado. É por isso que ela e colegas como Teliana Pereira, tenista de simples ex-top 50 e com dois títulos de nível WTA, cobram o retorno da chave feminina que não é realizada desde 2016. Bia a única sul-americana no top 150 e brasileira entre as 300 melhores tenistas do mundo. Qual o maior desafio? Para ela, é estar “sozinha” no circuito dominado por europeias, americanas, australianas e asiáticas.

— (O desafio) é saber que você tem que enfrentar o mundo com a sua equipe. Que as meninas do circuito não são suas amigas. Ela não falam a sua língua, não falam nem espanhol. Isso tudo são pequenas coisas que você sente. Eu sinto muita falta. Principalmente, quem é muito apegado. Sul-americano acho que sente mais ainda. Eu, sendo brasileira e a única sul-americana top 150, eu sinto isso. Essa distância do pessoal e no circuito, por mais que eu sente com uma russa, uma tcheca, a cultura é diferente. O papo é diferente, a língua é diferente. Você não brinca, não zoa, não tem a mesma química.

Inspiração em Maria Esther

Falar de Maria Esther Bueno para Bia é quase que falar de um livro que você leu várias vezes, mas custa a acreditar que aquilo tudo aconteceu de verdade. Maria Esther se tornou pioneira no Brasil na luta contra o sexismo quando palavra sequer era conhecida. Foi campeã no torneio mais tradicional da história do tênis quando grama era sinônimo de futebol no Brasil. E, mesmo no esporte mais popular do país, as mulheres eram proibidas pelo governo de disputar a modalidade profissionalmente até 1979.

— Eu acho que o papel dela foi muito importante na transição do tênis, onde a mulher sempre enfrentou preconceito dentro de casa, de ser a dona de casa, de não praticar esporte, de não mostrar o corpo. Tudo isso a gente vai lembrando e fica marcado na história. Desde então as roupas poderem ser coloridas e elas poderem enfrentar o mundo. É uma pessoa que é um ícone para o tênis e para mim é muito difícil alguém chegar perto do que ela fez no Brasil. – afirmou.

Apesar de ter sido a pioneira do tênis no Brasil, Maria Esther queixava-se da falta de reconhecimento em seu próprio país e da falta da construção de um legado no tênis feminino. Um ressentimento que levou até seu último dia de vida, em 8 de julho de 2018. A história segue mesmo sessenta anos depois da primeira conquista nacional: o título de “Estherzinha” em Wimbledon.

Nervosismo e problemas físicos

Apesar da dura derrota, a jovem paulista se despede de Wimbledon com um pé no top 100. Ela é a atual 121ª colocada da WTA, mas aparece como 95ª na projeção para o ranking após o torneio. Os nervos pesaram e a número 1 do país sentiu o momento depois da vitória expressiva sobre Muguruza na estreia da competição. A tenista explicou que sentiu dores na região do quadril e da coxa esquerdo, incômodo que já vinha do qualifying, mas se agravou durante a partida.

— Eu senti uma pontada um pouco maior numa chegada num backhand, acabou fisgando um pouquinho, mas era do quadril e acabou descendo um pouco para a coxa. Eu acho que foi da musculatura, não entendo muito bem disso. Já no terceiro set. Acho que foi uma contratura, cansaço. A gente acaba trocando muito de quadra, de piso, a grama você tem que jogar muito baixa e acho que foi mais por isso do que qualquer outra coisa.

Ela ainda contou que o nervosismo é um fator que está trabalhando para alcançar a “paz interior” e lidar melhor com partidas assim.

— São momentos de tensão, que eu fico mais nervosa, quando o jogo se complica, sempre a gente fica com o corpo um pouco mais duro e acaba percebendo isso um pouco mais. Eu sempre busco respirar, estar mais tranquila não só dentro da quadra, mas também fora para estar mais relaxada na quadra. E buscar esse relaxamento do corpo para o músculo, não sentir tanto. Assim como busco me alimentar, fazer a preparação física, eu busco essa paz interior para isso cada vez menos acontecer.

O próximo compromisso de Beatriz Haddad Maia será no WTA 125 mil de Bastad, na Suécia, disputado no saibro. Como deve entrar no top 100, Bia terá ranking para disputar o US Open, último Grand Slam da temporada.

Fonte: https://globoesporte.globo.com/tenis/noticia/bia-haddad-sonha-em-mudar-cenario-do-tenis-feminino-no-brasil-sinto-que-e-meu-papel.ghtml

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